ducklings
creepypastas e lendas urbanas
"humanos também lambem"

Eu sempre ouvi dizer que o isolamento prega peças na mente, mas o que aconteceu naquela noite ao sul de Farmersburg não foi fruto da imaginação. Meus pais tinham acabado de sair para a cidade, deixando a casa sob minha responsabilidade. O único conforto era a presença do meu Collie, um cachorro enorme e protetor que nunca saía do meu lado.
Antes de partirem, o aviso deles foi claro: "Tranque tudo". Por volta das 20h, comecei o ritual de segurança. Passei por cada cômodo, verificando trincos e fechaduras. No porão, porém, encontrei um problema: uma das janelas estava emperrada e não fechava completamente. Tentei de tudo, mas o máximo que consegui foi encostá-la. Tomada por um pressentimento ruim, decidi lacrar a porta do porão com pregos. Se algo entrasse por aquela janela, não chegaria até mim.
Fui dormir por volta da meia-noite, sentindo o peso reconfortante do meu cão deitado aos pés da cama. O sono, contudo, foi interrompido às 2:30 da manhã. Acordei com um som rítmico vindo do corredor: pim... pim... pim... Imaginei que fosse apenas uma torneira mal fechada na cozinha ou no banheiro. Bateu uma pontada de nervosismo, aquele medo irracional do escuro, então estendi a mão para fora da cama. Senti a lambida úmida e quente do meu cachorro na palma da mão. Relaxei. Ele estava ali, eu estava segura.
Às 3:45, o barulho me acordou novamente. O gotejar parecia mais pesado, mas o cansaço vencia o medo. Repeti o gesto, baixando o braço até sentir a língua áspera do meu Collie acariciando meus dedos. Adormeci profundamente pela última vez naquela noite.
Quando o relógio marcou 6:52, a luz do sol já filtrava pelas cortinas, mas o som do gotejamento ainda ecoava pela casa. Irritada com o desperdício de água, levantei decidida fechar a torneira. Caminhei até o banheiro, mas parei na soleira, o ar fugindo dos meus pulmões.
Meu Collie estava lá. Ele havia sido esfolado e pendurado pelo pescoço na haste da cortina do chuveiro. O som que me incomodou a noite toda não era água, mas o sangue dele batendo na porcelana fria. Meus joelhos cederam, e foi então que vi, no espelho embaçado, uma mensagem escrita com o sangue ainda fresco:

"Humanos também lambem."